HISTÓRIAS CRUZADAS: Arte

Capítulo 2:
por Marcelo Grisa

Farias mal conseguia acreditar no que via. Como era possível que tal coleção nunca tivesse visto os museus não somente do Rio Grande do Sul, mas do Brasil? Quiçá dos Estados Unidos, da Europa, da Ásia?
– Novamente: vocês têm alguma ideia do quanto isto pode valer?
– Essas coisas? Nada né, senhor… – Apesar do que achava, o filho mais velho de Aquiles, Ulisses, vacilava na frase. – Vai dizer que isso aqui é arte, por acaso?
Pierre Farias quase teve uma síncope. Os olhos estavam arregalados, e a testa suava em bicas na abafada garagem da Mathias Velho.
Como é que isso pode acontecer? O mundo tinha perdido um grande artista e não sabia!
– Esta coleção de esculturas são, sim, arte! Não só isso… São uma evolução do que fizeram nomes como o Bruno Segalla… O Xico Stockinger, que a Arte o tenha…
Então, um pensamento surgiu em sua mente, rápido. Precisava falar com ELE!
– Carlos! Gustavo! Tenius! Siiiim!
Uma senhora se aproxima, coma a mão para cima, como quem chama um professor para ter sua vez de falar. Era a dona Andreia, esposa do falecido Aquiles. Seus olhos ficam ainda menores atrás dos óculos grossos. Ela está visivelmente apavorada com a forma como o crítico esbravejava, fazendo seus parcos cabelos brancos esvoaçarem a cada palavra.
– Senhor… Mas a gente nem sabe o que são essas coisas. Não tem bicho, não tem gente, não tem…
– Tudo é uma questão de leitura!
Pierre suspira fundo no fim da frase. Olha à volta e percebe que eles não irão entender.
– Ok… Sabem aquela escultura em Porto Alegre? Aquela na frente do prédio da Assembleia?
– Aquela que parece um cavalo, tio? – pergunta uma garota, grande para o colo da mulher que a segurava. Era Susana, neta do morto, nos braços de Helena, a filha mais nova do próprio.
– Exatamente, garota! Vou chamar o senhor que fez aquele grande cavalo. Ele vai vir com um pessoal do museu e quem sabe o nome do teu vô sai no jornal. E todos poderão ver essas esculturas! Que tal?
Os adultos da família tinha tênues desesperos em seus olhares, que se cruzavam enquanto o visitante dizia todas aquelas asneiras. Eles seriam expostos a essa vergonha?
– EEEEEEE! Traz ele, tio! Traz!
A criança, que deveria já ter seus quatro anos, conservava muito bem sua inocência e franqueza. Depois de bater palmas, saiu do colo da mãe e apertou a mão de Pierre Farias.
– Só eu gostava dos coisos que o vovô fazia… Acho que todo mundo vai gostar!