HISTÓRIAS CRUZADAS: Arte

FOLHETIM
Capítulo 4:
por Marcelo Grisa

Passaram-se quinze dias. Na casa de Aquiles, suas lembranças ainda pouco empolgavam. Apenas Susaninha, a neta mais nova, continuava com a certeza de que o crítico Pierre Farias voltaria, trazendo pessoas que estavam na TV e o tiozinho que fez aquele cavalo exposto em Porto Alegre.
Enquanto isso, naquela manhã, sua viúva pouco se movia. Já tinha chorado tudo que conseguia. Lembrava de todas as vezes em que disse as palavras “latão retorcido” para o homem de sua vida. Pensava em como isso pode tê-lo machucado. Ele nunca reclamou, nem por um minuto.
À frente de sua poltrona, o telefone toca. Andreia levanta-se rapidamente. No fundo, ela sabia que ele viria, mas a dor era demais… Desligou, e foi avisar a todos para ajudarem a arrumar a casa.
Três horas depois, eles chegavam em três carros. Dois repórteres, um cameraman de um telejornal, um fotógrafo do jornal impresso, Pierre Farias e um senhor bem calvo, de olhar sereno e barba totalmente branca.
– Este é o escultor Carlos Gustavo Tenius. Desculpem a demora – Pierre parecia ligeiramente cansado, mas feliz.
Tenius pigarreou e cumprimentou-os, um a um.
– Boa tarde. Meus pêsames a todos vocês. Imagino que não tem sido fácil.
Depois de um café com a família enquanto Pierre e os repórteres organizavam as peças, todos voltaram à garagem aberta para inspecionar parte da obra de Aquiles. Carlos Tenius observou as peças em meio aos flashes e à luz artificial dos rebatedores. O espaço lúgubre tinha uma grande luz para a produção. A pequena Susana tinha um sorriso franco, enquanto o resto da família fluía entre a tristeza, a frustração e alguma remorso.
– Sim, isto é ótimo – Tenius disse, após cerca de meia hora observando, levantando e apalpando dezenas de peças. – Há grande valor não apenas artístico, mas comercial nisto. Eu mesmo entrarei em contato com os museus da Capital.
Susana comemorava, mas as expressões dos outros familiares não ressoavam.
– Eu… Acho que entendo vocês. Queriam ter olhado de outra forma. Acontece. Artistas nem sempre são compreendidos. Arte não é somente o belo.
– M-muito obrigado, seu Tenius – admitiu Ulisses, fazendo reverência. – Eu não tenho palavras. A gente foi ignorando esse tempo todo.
– Não agradeçam a mim. Agradeçam ao seu pai. Graças à persistência dele, vocês poderão ter uma vida muito melhor do que a que levam hoje. Por baixo, consigo chutar que esta colação pode valer uns dez milhões de reais.
A surpresa nos rostos de todos seguiu a declaração. Os repórteres já tinham seus microfones apontados para Tenius, ansiosos.
– Apesar do que falam hoje em dia, a arte tem seu valor, afinal.