HISTÓRIAS CRUZADAS: Arte

Capítulo 1:
por Émerson Vasconcelos

Aquiles não era exatamente um artista, pelo menos não era reconhecido desta forma. Sua arte era vista como lixo pela sua família e, por isso, ele mesmo não acreditava no seu potencial. Dava ouvidos aos parentes que chamavam suas esculturas de “latão retorcido” e, quando as produzia, guardava na sua velha garagem, empilhadas umas sobre as outra, sem maiores cuidados e sem catalogar ou nomear nenhuma delas. Foi assim durante toda a sua vida, o que gerou um número grande de peças, mais de 500, dos mais variados tamanhos, empilhadas umas sobre as outras.

Ao completar 58 anos, Aquiles descobriu um câncer no pulmão, já em fase terminal, possivelmente causado pelas mais de quatro décadas de excessos no cigarro. Nem fazia sentido para ele ficar se perguntando sobre o que causou sua condições, mas fazia sentido, sim, aproveitar os poucos meses que lhe restavam para tentar coisas novas. Viajar? Comer em restaurantes caros?

Comprar o carro dos seus sonhos? Tudo isso passou pela cabeça do chapeador. Mas com que dinheiro?

Pela primeira vez na vida, e tão perto da morte, Aquiles pensou em vender sua arte. Ou melhor, pensou em descobrir se aquele monte de “latão retorcido” poderia ter algum valor para alguém. Ligou para artistas que já tinha ouvido falar, para donos de galerias, bateu na porta de escolas, mas seque foi atendido, por ninguém. Desanimou, percebeu que era um entre milhares que procuravam estas pessoas e que, dificilmente, alguém lhe daria alguma atenção. Deu boa noite para Maria, sua esposa, e para Paulo, seu filho mais velho, deitou na cama e fumou seu último cigarro. Morreu naquela noite, dormindo. Os médicos tinham sido muito otimistas com sua expectativa de vida e uma parada respiratória o levou.

Dois dias após seu enterro, Pierre Farias, famoso crítico de arte, bateu na porta da casada família e, mesmo após ser informado da morte de Aquiles, pediu para ver a garagem. Ao se deparar com o acervo de “latão retorcido” e observar por mais de meia hora, falou: “Vocês tem ideias de quantos milhões de reais temos aqui dentro?”