HISTÓRIAS CRUZADAS: Doce inocência

Capítulo 3:
por Miguel dos Anjos

A família de Aquiles ainda estava estarrecida em saber sobre a possível importância da obra dele. Enquanto eles ouviam atentamente cada palavra que saía da boca do crítico Pierre Farias, a descrença de cada um se fazia presente e era visível pela troca de olhares e braços cruzados. Farias fez questão de se despedir de todos com um forte aperto de mãos. Quando chegou na vez da viúva, ele a abraçou e disse – fiquem tranquilos, seu marido vai ter o reconhecimento que merece.
O crítico foi embora. O silêncio entre eles era perturbador. Mas foi rompido com o questionamento da esposa do falecido.
– Vocês acreditam no que esse senhor falou?
– Acho que ele está blefando, nos iludindo. Responde indignado Ulisses, o filho mais velho de Aquiles. Ainda complementa: – O pai apresentou sua arte aos sete cantos e poucas pessoas deram valor enquanto ele estava entre a gente. Agora vem esse sujeito, metido a intelectual e tenta nos convencer que esse monte de ferro torcido representa algo. Por que só agora o que ele fazia tem valor?
Enquanto eles discutem por um longo tempo sobre a visita do crítico, Suzana, a netinha do artista que tinha saído do colo da mãe e brincava enquanto eles conversavam, entra novamente na sala, desta vez, trazendo consigo uma das peças do avô. Todos olham para a menina que estava paradinha, abraçada na peça e diz:
– Eu acredito nele! Por que vocês não conseguem ver que elas são especiais? Eu adorava ver o vovô fazendo elas, ele fazia com amor. Sinto saudades dele.
Todos olham para a menina e cessam imediatamente a discussão.
Então, Ulisses embarga a voz e diz:
– Por que estamos discutindo sobre isso? Que diferença faz? Talvez estejamos vedados pelos conceitos impostos a nós pela sociedade e não estamos vendo além do que nossos olhos podem ver. Suzana tem razão. Vamos aceitar a visita da imprensa e mostrar ao mundo o trabalho dele. É o mínimo que podemos fazer.