HISTÓRIAS CRUZADAS: A esperança

Capítulo 7:
por Hector Quines

Não há nada mais desesperador do que a falta de memória, e Gabriela tinha esse problema. Existe um lapso em suas lembranças. Ela começa a se recordar de sua vida a partir dos 9 anos de idade. Entrou no colégio nesta idade, pouco depois de ter sido adotada por seus pais. Eles sempre disseram que a buscaram em um orfanato que tinha condições precárias e não tinham ideia de por que as crianças de lá não frequentavam o colégio. Uma história frágil e sem muito cabimento, afinal, como poderiam os órfãos serem privados de um direito tão básico como o de estudar? Ela sempre acreditou que não lembrava de nada por algum tipo de trauma, algo decorrente do abandono que sofreu de sua família de sangue e da vida ruim que levava no abrigo. Foi isso que os psicólogos sempre a disseram. Aliás, apesar de não serem ricos e até enfrentarem problemas financeiros com frequência, os pais de Gabriela nunca economizaram no sua saúde. Ela nem sabe de onde tiraram dinheiro para que ela fosse em tantos especialistas no final da infância e na pré-adolescência e, na verdade, nem sabe ao certo para o que serviam a maioria deles. Os pais marcavam e ela ia, respondia perguntas, e ia embora. Os psicólogos e psiquiatras, vários deles, sempre demonstraram curiosidade a respeito da vida que ela tinha antes da adoção, tentaram ajudá-la a lembrar, mas não foi possível.

Antes dos 9 anos de idade, Gabriela só tem uma lembrança, na verdade. A lembrança do sonho que a persegue a cada noite. O homem sendo levado por criaturas estranhas. Afinal, teria ela algum poder especial ou alguma conexão com Alex, o canoense que foi brutalmente abduzido há 17 anos e devolvido há poucos dias? Gabriela nem faz ideia, mas a conexão entre os dois é uma missão para a qual ela foi designada. Ao nascer, em um planeta muito distante da Terra, Gabriela não tinha esse nome. Sua verdadeira identidade sequer é pronunciável em vocábulos terrestres. Um medalhão, que guarda desde os 9 anos é a chave para o segredo.