HISTÓRIAS CRUZADAS: A esperança

Capítulo 8:
por Marcelo Grisa

Gabriela e Alex aproximaram-se em passos quase coreografados. Sincronizados em seus pés, vieram até o asfalto da Rua Ipiranga, ficando a apenas três passos um do outro. Nesse ponto, algo brilhava com um calor estranho no peito da moça: era o medalhão. Entretanto, ela não conseguia se importar. Importavam, sim, as respostas. Resolver não apenas este, mas todos os mistérios de sua própria vida.

Alex, por outro lado, estava perdido dentro de si mesmo. Em um vasto espaço bege, estava suspenso, com as roupas que usava quando fora abduzido, em tempos hoje imemoriais. Não conseguia se mexer, tampouco estava preso em qualquer estrutura. Os espíritos de formas que não pertencem à Terra o circundavam, fazendo perguntas que sua mente não compreendia, tanto em forma quanto conteúdo. Era como se formas geométricas entrassem na sua mente tentando montar formas que explicassem a situação.

Fora dali, os fantasmas controlavam seu corpo. Dando mais um passo à frente, Alex – ou quem quer que fosse em seu lugar ali – encostou um dedo indicador na testa de Gabriela. Sem reação, ela experimentou uma visão que a deixou desconcertada.

Estava por sobre uma espécie de cidade, que mesclava-se a uma grande floresta. Torres viam-se integradas a árvores com caules roxos e folhas de todas as cores e mais algumas. Alguns segundos depois, era como se caísse na cidade, ficando apenas a alguns metros de cidadãos aparentemente pacatos.

Alguns deles eram humanos, outros não. Comércio, confusões, intriga, amor, vizinhança, azedume e às vezes festa: conseguia sentí-los, todos, de formas que nunca havia. Como se pudesse ler suas mentes. Como em um livro de narrativa onisciente.

Arrebatada pela avalanche de percepções, de repente, tudo tornou-se mais escuro. Uma explosão ocorria ao longe. Lasers começavam a cruzar o céu, em diferentes cores. Mas o espetáculo não tinha um desfecho alegre.
No final, enquanto voltava a si, uma frase gravou-se em seu cérebro. Tão simples, e tão poderosa. Não era escrita desse jeito – ela nem sabia se nosso alfabeto a comportaria. Mas era clara em sua intenção.

– Salve-os, minha filha amada.