HISTÓRIAS CRUZADAS: A Esperança

Capítulo 9:
por Hector Quines

Em 2042 o presidente da república, Alexander Ferreira, desembarca na estação de teletransporte da base aérea de Canoas, acompanhado da ministra das relações internacionais, Gabriela Araújo. Ambos sempre tiram alguns dias de férias em sua cidade natal, quando os compromissos do planalto permitem.

Gabriela e Alexander já foram casados e são pais de três crianças, trigêmeos, para ser mais exato. Os dois ainda se amam, mas não conseguiram manter uma vida conjugal porque o trabalho na política era levado por eles para dentro de casa e também por divergências que ambos têm em relação ao segredo que guardam há décadas. Toda vez que ambos vêm juntos a Canoas para visitas às suas famílias, a paixão reacende, especialmente quando avistam, em passagem em comboio pela BR-116, o lugar onde se conheceram em situação pelo menos estranha.

O avanço tecnológico do país, começando por Canoas, é atribuído a Alexander. Sua popularidade como presidente é altíssima entre os empresários e a classe média alta. Como o transporte público e a infra-estrutura das cidades como um todo melhorou muito, o povo, no geral, tendia a gostar também de seu governo. No entanto, isso não era uma realidade, já que o desemprego atinge índices nunca antes vistos no país. Quanto trabalho sobra para a população num mundo em que o transporte público se baseia em estações de teletransporte e a construção civil, assim como grande parte da indústria é baseada no trabalho de robôs?

Ao chegarem no hotel, Alex entrou para o banho, enquanto Gabriela ficou assistindo televisão na sala da suíte. Ao sair do banheiro, o presidente se deparou com uma cena assustadora. Caída no sofá, com os olhos arregalados, Gabriela estava em uma espécie de transe, e, ao seu lado, havia um bilhete, que dizia: “Não devíamos ter aceitado a influência deles. Despejar toda essa tecnologia antes da hora foi um erro. Minha consciência acaba de ser enviada de volta ao meu corpo de 2017. Vou consertar tudo”.