HISTÓRIAS CRUZADAS: A esperança

Capítulo 10:
por Marcelo Grisa

Quando Gabriela voltou a si, não era ela mesma, mas sabia que já tinha vivido aquele momento. Era 2017 mais uma vez. O procedimento mental que aplicou em si mesma funcionou. Era hora de consertar as coisas.
Olhava para o chão, absorta com tudo o que aconteceu desde então. Apenas um momento depois, levantou os olhos até os de Alex. Não eram os olhos do homem que um dia iria amar… Eram os olhos Deles. Daria tudo muito certo no começo. Depois disso, as pessoas sofreriam. Muito mais do que em 2017, inclusive.

Resolveu então usar o que sabia dos seus poderes já em 2042. Ainda com as mãos para baixo, colocou os dedos indicadores um por cima do outro, esticando os polegares. Formou um T com as mãos. Quando faria menção de levantar as mãos unidas, Alex segurou-a com força. Seu rosto era impassível, mas a voz dos pioneiros de Azrashta ribombou na Praça do Avião. Eram muitas vozes condensadas numa só:

– Você não isso fará!

Gabriela sorriu. Sabia que eles estavam surpresos. Como poderiam prever que ela saberia fazer o que estava fazendo em 2017, e não anos depois, quando ensinaram-na?
Dando um passo para trás, ela livrou-se do aperto da criatura e levantou as mãos unidas. Uma energia azul passou a envolvê-las. Era possível sentir os pequenos tremores no chão embaixo de Gabriela subindo a níveis ensurdecedores. Minúsculos pedaços do asfalto passaram a flutuar, descolados do piso da rua.

Em resposta, as criaturas que possuíam Alex organizaram-se. Três tentáculos de três metros com três garras na ponta de cada um emergiram por trás dele. Todos fantasmagóricos, como se fossem feitos de névoa sólida.
As pedras, imbuídas de energia crepitante, moveram-se. Os apêndices fantasmas também, em uníssono. Por um milésimo de segundo, o ar virou faíscas…

– Parados!

Algo surgiu, em um clarão branco. Vestido com um quepe de maquinista e um terno risca de giz, um homem jovem, alto, de traços muito delicados. Ambos não conseguiam continuar. Seus olhos azuis claros, quase cinzentos, apontaram para ambos. Seu olhar era de reprovação. Fixou-se em Gabriela, aproximando-se.

– Parece que temos um pequeno caso de interferência não-autorizada no tempo, não?