HISTÓRIAS CRUZADAS: A mulher assassinada era culpada ou inocente?

Capítulo 9 (Continuação):
por Alexandre Derlam

Os dois ficaram se encarando. Nenhuma palavra. Nenhuma reação. Apenas um silêncio mordaz.
– Que tal um trago? Disse Lucas.
O velho Antônio permaneceu quieto e imóvel.
– Porque não? Que mal um trago pode fazer a um velho e seus malditos dias contados. Não é mesmo? Pensou Antônio.
Entraram a passos largos no bar do Gordo. Aquela espelunca entre a Rua Júlio de Castilhos e a Bagé, no Bairro Niterói. Os frequentadores eram os mesmos de sempre. Dois velhos tomando seus martelinhos. Uma trans que fazia ponto ali perto e que nunca levava desaforo para casa. Duas mulheres negras que não paravam de falar. A mulher do gordo na cozinha em meio aos hambúrgueres e pastéis.
– Preciso ir no banheiro. Disse Antônio.
O velho nem sentou na cadeira fria, nem tomou um gole daquela cerveja barata e já estava ao lado da tampa do vaso. A cabeça não parava de lembrar coisas que ele pensava ter esquecido para sempre. Por que eu estou aqui? Por que eu vou perder o meu tempo com este pulha? E este fedor. Que estou fazendo? Da minúscula janelinha úmida sentiu um cheiro forte de “mijo” de gato. Sentiu náuseas. Aguentou no osso.
– O que vai ser? Perguntou o gordo coçando a barba. Estava suado. Sempre estava suado.
– Lucas, eu gosto de… Antes que Antônio concluísse a fala, Lucas interrompeu:
– Traz uma cerveja bem gelada aí mestre. E uns destes teus pastéis. Traz mostarda também. É isso.
O Gordo acenou positivamente com a cabeça. Deu de ombros e saiu caminhando com uma certa dificuldade e preguiça.
– Humm, olha aquela criatura. No meu tempo… eu não sei.. Isso não se criava, sabe. Mas tá tudo mudando hoje em dia. Disse Antônio despistando o clima hostil. Dividindo o tempo, encarando a trans e encarando Lucas.
– Sei… sei… Sabe, vou te dizer uma coisa. Eu ainda lembro muita coisa do teu tempo. Dá pra acreditar? Você gostava de caipirinhas. É… eu me lembro. Samba quente era assim o nome deles, né? O conjunto musical. Os teus amigos. Você lembra?
Antônio olhou diretamente nos seu olhos. Acenou positivo com a cabeça.
Lucas respirou fundo. Se aproximou colocando os dois braços na mesa.
– Então vamos falar de passado? Ou vamos ficar aqui discutindo os tempos atuais?
O Gordo se aproximou com a cerveja e os pastéis. Lá fora, a sirene de uma viatura da brigada quebrou a concentração de Lucas.
– Minha vez.
Lucas levantou-se e seguiu na direção do banheiro. O velho permaneceu quieto observando o gordo servir a cerveja nos copos gelados.