HISTÓRIAS CRUZADAS: A mulher assassinada era culpada ou inocente?

Capítulo 11 (Continuação):
por Monique Mendes

Antônio saiu do bar e chamou um táxi até sua casa. Lucas preferiu caminhar pelas ruas vazias de Canoas, naquela fria madrugada de junho. Ele sabia que era perigoso andar àquela hora pela cidade, mas não se importava com o perigo. O corpo mostrava os sinais dos efeitos do álcool no organismo. Enquanto andava sozinho, muitas lembranças povoavam sua mente, mas as mais presentes eram de Julia, sua esposa. Certas vezes, ele tinha a sensação de que ela ainda estava por aqui, assim como sua mãe.

– Por quê? Por que você fez isso comigo Julia, sua vadia?! Você é culpada! Todas as mulheres são culpadas. Vocês nos fazem perder a cabeça e nos levam à ruína. Pensou Lucas.
As palavras de Antônio dizendo que sua mãe não era a santa que ele pensava, também martelavam sua mente. Ele sempre acreditou que a mãe era boa, sofria calada com os abusos do pai. Como não ser a santa que ele lembrava? Será que ela também não prestava como todas as mulheres de sua vida?

Por muitos anos, Lucas sofreu calado vendo o pai chegar bêbado em casa e bater na mãe. A lembrança das ameaças, palavras de baixo calão e das humilhações nunca saíram da sua memória. Antônio era explosivo, agressivo, falava alto. Sabia que o pai tinha assassinado sua mãe, mas ele negava dizendo que tinha sido um assalto e não tinha envolvimento com o crime. A polícia arquivou o caso por falta de provas, mas Lucas sabia que o pai era o assassino.

A raiva o corroeu por anos, como um câncer que não mata, mas mantém a dor.
As lembranças daquelas mulheres, o gosto da cerveja barata que embrulhou o estômago e a tontura que estava forte, fez Lucas parar e sentar numa calçada. Ele sentia frio, enjoo e uma dor forte no peito. Pela primeira vez ele chorou. Depois vomitou e sentiu um alívio.
– Eu nunca vou perdoá-la. Ela me traiu com outros homens, como pode? Pensou Lucas.

Depois de quase uma hora andando, ele chega até a casa de Antônio. Para, olha para onde morou com a esposa por quase um ano e sente novamente o aperto no peito. Julia era uma mulher faceira, agradável, chamava a atenção por onde passava, tinha facilidade em fazer amigos. As qualidades de Julia irritavam Lucas, que sempre teve ciúmes da mulher.

Antes de bater na porta do pai, ele já estava o olhando pela janela.
– Demorou, achei que não viria. Estava te esperando. Entre! Disse Antônio.
– Óbvio que viria, eu esperei a vida toda por este momento. Respondeu Lucas.