HISTÓRIAS CRUZADAS: A mulher assassinada era culpada ou inocente?

Capítulo 6 (Continuação):
por Monique Mendes

folhetim foto- monique mendesSentado em sua poltrona, o homem está na inércia, ouvindo a sinfonia 5 de Beethoven. As batidas na porta da sua casa aumentam a intensidade. Ele está sentindo prazer naquele momento, em que o som da música se mistura às batidas da porta.

– Abra, é a polícia! Tem alguém em casa? Pergunta o policial.
Lentamente ele levanta, calça os chinelos de couro e segue em direção à porta da pequena casa, decorada com objetos antigos e muitos retratos de família. As fotos estão colocadas simetricamente nos porta-retratos sob os móveis de madeira e quadros empoeirados.

Ele abre a porta e com a expressão de falsa surpresa, diz: – Bom dia, posso ajudar?
Então percebe que uma viatura está estacionada em frente à casa dos vizinhos e mais um policial está dentro dela.
– Bom dia Sr. como se chama? Diz o policial, um homem de pele negra, com o semblante marcado pelas profundas olheiras – provavelmente herdadas pelo excesso de trabalho e intermináveis plantões.
– Me chamo Antônio. Em que posso te ajudar? Responde ele.
– Estamos averiguando alguns fatos, e essa visita é apenas para verificar algumas informações relacionadas aos seus vizinhos do apartamento 201, aí da frente. Você os conhece? Pergunta o policial.
Em tom meio irônico o homem responde: – Quem conhece quem hoje em dia, policial?
Os dois riem.
– Sr. Antônio, de fato, as pessoas não se conhecem mais, ou talvez, nunca se conheceram. Acho que isso acontece porque no fundo, todos guardam seus segredos. Mas, deixemos de lado as filosofias, preciso saber se você teve algum contato com seus vizinhos nos últimos dias, diz o policial.

Naquele momento o relógio parou. O olhar distante e as diversas lembranças daquele casal povoam sua mente. Era agradável vê-los todos os dias e acompanhar sua rotina: as discussões, as risadas altas, até mesmo quando não faziam nada e apenas passavam pela janela.
“Será que tenho problemas, pensa ele. Sou um voyer que sente prazer em observar os outros? Mas hoje em dia, nas redes sociais, todos observam todos, o tempo inteiro”, pensa ele.

Muitas perguntas começam a gritar em seus pensamentos. As lembranças misturadas ao prazer e o sentimento de vazio de não vê-los mais, o incomodam nos últimos dias.
– Faz mais de uma semana que não os vejo, policial. E não. Não os conhecia. Na verdade, nunca falei com eles, responde o homem.