Opinião: Não troco o carnaval por uma ambulância!

 

bruno09012016

Por Bruno Lara

Antes que pensem o contrário, não sou rico e uso o SUS a minha vida inteira. A saúde é sim essencial e será para todo o sempre, assim como educação e segurança. Os três pilares de qualquer eleição bem sucedida. Mas existem diferenças ideológicas em cada governo e isso é essencial. Cada um possui políticas públicas diferentes e que entendem ser o melhor para a sociedade. O voto é a ferramenta que legitima que esta ideia é a que a maioria do povo quer.

Pois bem. Na cidade de Porto Ferreira, no interior de São Paulo, a prefeita Renata Braga (PSDB) resolveu tomar uma atitude que caiu muito bem para a imagem do partido, que comemorou a novidade como uma vitória. Ela acabou com o carnaval na cidade. Em uma jogada de marketing, anunciou que a verba que seria destinada para a maior e mais tradicional festa brasileira para adquirir uma ambulância. A decisão obviamente foi comemorada e a chefe do Executivo aplaudida. O custo da festa é em torno de R$ 120 mil.

Esquecem-se estes que o Carnaval não é apenas uma festa, mas uma comemoração de um ano de árduo trabalho, a mistura de culturas e uma grande oportunidade de crescimento social. Embora os trabalhos sociais tenham se perdido na maioria das agremiações beneficentes, muito em função de pessoas com interesses duvidosos as usam para alcançar algum lugar na política, estas ostentavam papel importante e que faz falta para todas as comunidades.

Para servir de base, o maior carnaval do Brasil e, por consequência, do mundo, o do Rio de Janeiro, movimenta em torno de R$ 1 bilhão todos os anos, além de criar 300 mil postos de trabalho e agitar o comércio local com a vinda de pessoas de todos os estados e de fora do país. Só no ano passado, segundo o portal online UOL, foram 977 mil turistas no período. O evento na Marquês da Sapucaí é esperado o ano todo pelos comerciantes. O carnaval de Salvador, segundo a revista Época, em 2014, foi o responsável pela entrada de R$ 10 milhões nos cofres públicos. Deixar de investir R$ 120 mil para adquirir uma ambulância é, na verdade, abrir mão de um retorno que, no futuro, bem investido e sem corrupção, poderá servir para adquirir duas ou mais. A reeleição, no entanto, parece mais importante.

O retorno financeiro ainda é o menor dos argumentos. Os barrocões das escolas de samba sim deveriam receber uma forte atenção do poder público. Um trabalho de arte, de cultura, de aprendizado que poderia ser usado para o bem, mas não o é por falta de interesse dos gestores. Para servir de comparação, usamos o número de interessados nesta festa que além da farra conta a história do seu povo para o mundo. No Rio, são 12 as escolas de samba. Cada uma delas pode levar de 2.500 a 4.000 componentes. Todas estão sempre lotadas. Faça as contas e pense quantas pessoas gostam e passam, ao menos uma vez no ano, no barracão da escola para desfilar alguns minutos na avenida.

Ninguém vai para desfilar no máximo 82 minutos na passarela. O carnaval é uma oportunidade de contar e fazer histórias, de mudar práticas cotidianas, de trazer e mostrar cultura para o povo. “É hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar. Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu”, samba regravado por Monobloco, Fernanda Abreu, Caetano Veloso e tantos outros que entendem a mensagem de transmitir ao Brasil um pouco mais de confiança, esperança e alegria. O carnaval é um grito de alegria. É a nossa festa.

Crianças podem sair das drogas e do mundo do crime por aprender a tocar um instrumento. Isto pode ser uma renda para famílias carentes e, para quem não sabe, é. A confecção de fantasias e alegorias, além de uma arte, também tem utilidades para além dos minutos na avenida. O que houve com os carnavais de rua quando as pessoas tomavam as suas ruas com fantasias feitas por si mesmas? Aquelas pessoas que competiam qual escola era a mais bonita: a da sua rua ou a da rua ao lado? Uma união dos vizinhos para não fazer feio. Devolvam o carnaval ao povo!

Rosa Dourada foi a campeã em 2013. Foto: Página 7 da edição 2535 de O Timoneiro, datado de 15 a 21 de fevereiro 2013

Rosa Dourada foi a campeã em 2013. Foto: Página 7 da edição 2535 de O Timoneiro, datado de 15 a 21 de fevereiro 2013

Neste ano a multicampeã canoense, Rosa Dourada, falará sobre Olorum, a criação do mundo e a força dos orixás em um samba de autoria do vereador e integrante antigo da escola, Sidiclei Mancy. “Olorum o Deus, o criador, que beleza a natureza que meu pai criou e confiou a cada orixá um elemento para se manifestar, abre as portas e os caminhos óh Bara, com sua licença a minha Rosa vai passar”, pede a campeã de 2013, que representa a Vila Cerne, e que não concorreu em 2014, pois a festa foi cancelada. Ao menos agora, em 2015, o carnaval de Canoas está marcado para os dias 19 e 20 de fevereiro. #JáTemCarnaval

Para aqueles que acreditam que se trata apenas de bunda e sexo e se esquecem que se trata de uma tradição que, no território local, data da colonização do Brasil praticada pelos escravos, mas que surgiu na Mesopotâmia. O que está nos falindo não é o futebol ou as festas, o que está nos falindo é a corrupção. O que fale o Brasil não são os foliões das passarelas, mas os foliões do dinheiro público.

Não troco por serem coisas distintas. Por uma não ser uma alternativa a outra. Não troco, pois uma é uma possibilidade de financiamento, de captação de recursos para a outra. Não troco, pois já se foram dois anos sem é o dinheiro economizado não foi para a saúde. A festa da carne nos lembra de onde viemos e para onde queremos ir. “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz”, samba de Niltinho Tristeza que traz ao conhecimento do povo o tão desconhecido hino da independência.